sábado, 14 de fevereiro de 2026

fingir que está tudo bem (*)

fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

José Luís Peixoto, in 'A Criança em Ruínas'

Fingir que está tudo bem, é quase como que... colocar uma máscara... esconder o que somos...  sentimos... é como que vestir um sorriso feito de silêncio e guardar no peito tempestades que ninguém vê ou que queremos esconder... 

Fingir que está tudo bem é caminhar entre sombras suaves, umas vezes... e tenebrosas, outras tantas… com passos leves de quem não quer acordar (d)os próprios medos... é tentar desenhar o dia com cores inventadas… é erguer palavras como muros e esconder a voz no fundo do olhar... é sorrir quando o que apetece é...


Fingir que está tudo bem é fazer da saudade um porto seguro, e esperar que, em algum lugar, alguém entenda o peso de não dizer, de não sorrir, de não fazer... é deixar o tempo passar, como quem deixa a chuva cair do lado de fora, na esperança de que, amanhã, um dia, seja lá quando for, fingir já não seja necessário.





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