quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Na hora de pôr a mesa, éramos cinco (*)




Na hora de pôr a mesa, éramos cinco
O meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu
Depois, a minha irmã mais velha, casou-se
Depois, a minha irmã mais nova, casou-se
Depois, o meu pai morreu

Hoje na hora de pôr a mesa, somos cinco
Menos a minha irmã mais velha que está
Na casa dela, menos a minha irmã mais
Nova que está na casa dela, menos o meu
Pai, menos a minha mãe viúva

Cada um deles é um lugar vazio nesta mesa onde como sozinho
Mas irão estar sempre aqui na hora de pôr a mesa
Seremos sempre cinco
Enquanto um de nós estiver vivo
Seremos sempre cinco

(*) Poema de José Luís Peixoto

1 comentário:

  1. Este poema revela uma compreensão rara do tempo e da pertença. A ausência não diminui o que fomos... transforma-o. Os lugares vazios não são faltas, são presenças que passaram a habitar a memória. Mas quem fica carrega também a exigência silenciosa de continuar a viver, de construir outras memórias sem trair as antigas, de pôr novas mesas sem esquecer a primeira. “Seremos sempre cinco” não é nostalgia: é fidelidade ao que nos fundou...que por vezes nos impede de seguir...

    ResponderEliminar