(O Cisco e a Trave 1619. Por Domenico Fetti,
atualmente no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque)
atualmente no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque)
A sabedoria popular portuguesa é fértil em metáforas sobre a natureza humana. O provérbio que dá título a este meu desabafo é, talvez, um dos retratos mais certeiros da nossa incapacidade de autocrítica e tem inspiração no Evangelho de Mateus na passagem de transcrevo de seguida:
«Não julguem ninguém e assim Deus não vos julgará! É que Deus há de julgar-vos do mesmo modo que julgarem os outros, usando a mesma medida que usarem para os outros. Por que reparas tu no cisco que está na vista do teu semelhante, e não vês a trave que está nos teus próprios olhos? Como te atreves a dizer-lhe: “Deixa-me cá tirar-te isso da vista”, quando tens uma trave nos teus olhos? Fingido! Tira primeiro a trave dos teus olhos e depois já vês melhor para tirares o cisco da vista do teu semelhante. Não deem aos cães o que é santo. Eles são capazes de se virar contra vocês e de vos despedaçar. Não deitem as vossas pérolas aos porcos! Pois eles vão pisá-las.» (Mateus 7, 1-6)
A imagem apresentada é poderosa: enquanto nos perdemos a apontar um "argueiro" - um minúsculo grão de poeira ou cisco - nos olhos de quem nos rodeia, somos incapazes de sentir ou admitir um "tranqueiro" - uma trave ou tronco enorme - que nos obstrui a própria visão.
Este fenómeno revela a facilidade e superficialidade com que nos apressamos a exercer o papel de juízes. É tentador e, de certa forma, confortável apontar as falhas dos outros. Ao criticar o pequeno erro do vizinho ou a falha de carácter de um colega, ou o que quer que seja, criamos uma ilusão de superioridade moral, projetamos nos outros as nossas frustrações, fazendo com que o argueiro nos olhos dos outros seja como que uma cortina de fumo capaz de evitar o confronto com as nossas próprias montanhas de defeitos.
Viver com um "tranqueiro" nos olhos será caminhar pelo mundo com uma visão distorcida, uma espécie de espera do comboio na paragem do autocarro no cantar de Sérgio Godinho…
A verdadeira lucidez não começa na observação dos outros, mas na coragem de olhar para o espelho. Retirar o tranqueiro dos nossos olhos é um exercício doloroso e constante; exige que troquemos o julgamento pela introspeção. Só quando admitimos as nossas próprias falhas e insucessos é que ganhamos a autoridade moral e a sensibilidade necessária para lidar com os ciscos dos outros.
Aquele que não reconhece as suas próprias faltas graves perde a capacidade de evoluir. O orgulho atua como um anestésico que nos impede de sentir o peso das nossas contradições, tornando-nos mestres na exigência e aprendizes na humildade.
Em suma, este provérbio convida-nos a uma inversão de prioridades: antes de limparmos o horizonte alheio, urge desimpedir o nosso próprio olhar.
Afinal, a justiça devia começar sempre pela autocrítica.
PS.: Como estamos no último dia deste ano do Senhor de 2025, desejo a todos, todos, todos, um bom ano de 2026... cheio, preferencialmente, de coisas boas... e de muita e boa autocrítica.
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