sábado, 31 de janeiro de 2026

O Amor e o Tempo (*)


Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

— «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento...
— «Porque voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» — Nesse momento,

Volta-se o Amor e diz com azedume:
— «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!

(*) António Feijó, in 'Sol de Inverno'




1 comentário:

  1. Há poemas que não se partilham para serem lidos à pressa, mas para serem reconhecidos. O Amor e o Tempo de António Feijó, um dos meus preferidos, lembra-nos que nem tudo o que é verdadeiro é eterno.. e que isso não lhe retira valor... Pelo contrário!
    O amor não perde por não durar para sempre... perde-se apenas quando fingimos que o tempo não existe. Talvez amar seja também isto... aceitar que o tempo passa, sem negar a intensidade do que foi.
    Este poema diz aquilo que muitas vezes sentimos e raramente sabemos dizer ...que o tempo não apaga o amor, apenas o transforma... CTAVORA.

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