segunda-feira, 6 de março de 2023

SILERE NON POSSUM // n.º 27 // Carlos Aguiar Gomes

SILERE NON POSSUM


(Não me posso calar – Santo Agostinho)

“Para destruir um povo é preciso destruir as suas raízes.” (Alexandre Soljenitsyne)

Carta aos meus amigos - n.º 27

BRAGA, 02 - MARÇO - 2023

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PAX

««Então, foram-lhe apresentadas várias crianças para que lhes impusesse as mãos e orasse por elas. Mas os discípulos repreendiam-nas. Jesus, porém, disse-lhes: Deixai as crianças, e não as impeçais de vir a Mim, porque delas é o Reino dos céus.»
(Mt 19, 13-15)

«… ai daquele por quem vêm (os escândalos)! Seria melhor para ele que lhe pendurassem ao pescoço uma pedra de moinho, e que fosse precipitado no mar, do que ser causa de escândalo para um destes pequeninos.»
(Lc 17, 1-2)

Cristo Sumo Sacerdote

Hesitei bastante se havia de escrever algo, produto da minha reflexão sobre a gravíssima crise que está a abalar fortemente (e fragorosamente?) a Igreja. 

O nosso povo costuma dizer, cheio de sabedoria, que “quem cala, consente”. E é verdade. O nosso silêncio, mesmo que interiormente desaprove determinados factos, é, ou pode ser, entendido como anuência a erros, falsidades, alarvidades ou outras formas de ataques à Verdade.

Como o tema destas minhas Cartas semanais têm um mote – SILERE NON POSSUM -- atribuída a Santo Agostinho e que se pode traduzir por “não me posso calar”. Não, por feitio e educação, não posso compactuar com o meu silêncio, com o que se passa na Igreja a que pertenço desde o dia 30 de Junho de 1945, dia do meu Baptismo. Sobretudo com o que está sucedendo há décadas na derrocada provocado por causas internas e externas. Assim, como não me posso calar, aqui estou a não guardar silêncio.

Em Portugal, na Europa e nos EUA, sobretudo, há já vários anos que toda a comunicação social divulga e/ou debate os diversos escândalos que brotam de dentro da Igreja e provocados por alguns dos seus membros, alguns bem influentes e hierarquicamente colocados no topo. Os últimos escândalos, crimes e pecados graves, como a pedofilia, envolvendo membros do clero com crianças e jovens, é motivo de debates infindáveis. Todos os “peritos” e candidatos a “peritos” se sentem na obrigação de atacar a Igreja com grande violência. Estou a recordar-me de um artigo de opinião de Francisca de Magalhães Barros (Pintora) que li no “Novo Nascer do Sol” de 24 de Fevereiro deste ano. Vamos ao que esta senhora escreveu:

“… ao mesmo tempo que isto (o Relatório da Comissão Independente) se torna público, com testemunhos abjectos uns atrás dos outros por parte das vítimas, dá-se o escândalo dos gastos para a Jornada Mundial da Juventude. Jornada essa composta por padres, monitores de todos os cantos do mundo de onde sabemos também os escandalosos números de abusos sexuais dentro de eventos católicos e da Igreja…”. Ou “… Acham mesmo que neste momento uma criança não foi aliciada ontem, está a sê-lo hoje e não irá sê-lo amanhã?”… E um por aí fora de acusações e insinuações idênticas destilando ódio contra o clero católico e católicos em geral. Sim, esta “perita” tem razão em abominar, como eu, um pai de 4 filhos e avô de 8, todos os ataques pedófilos contra as crianças. Mas deveria pensar e “peritar” que a pedofilia é “doença” de muitas famílias, em muitos centros desportivos e de lazer. Até, esta “perita” deveria saber que, na Holanda, já houve, há poucos anos, e está em dormência, um Partido político que advogava a liberdade sexual das crianças, um Partido de Esquerda, diga-se de passagem. Ou que em Espanha uma Ministra do actual Governo advoga a liberdade sexual para as crianças desde que queiram ter relações sexuais. Nada, absolutamente, justifica o ataque sexual ou outro a uma criança! Nada! E não precisamos de peritos para o afirmar. Nem, muito menos de fazer generalizações abjectas como ela o fez no artigo que referi. 

Sim, há maus padres, freiras e leigos católicos. Muito maus mesmo. Péssimos. Mas a maioria não “navega” nesta onda de abjecção, graças a Deus e à sua (deles) grande fé e coerência de vida. Isto de vir insinuar que as Jornadas Mundiais da Juventude seria um encontro cheio de vorazes pedófilos é demais!
Quantas crianças e jovens foram salvos da desgraça, da prostituição ou da pobreza graças a Padres, Freiras e Leigos Católicos que doaram toda a sua vida pelos mais descartados entre os descartados! Quantos milhares? Obviamente que não se pode tolerar qualquer tipo de abuso contra as crianças, os indefesos ou abandonados. É execrável todo e qualquer acto que belisque a intocabilidade de uma criança (talvez mesmo e sobretudo, antes de nascer ou nesta situação já temos “outro peso e medida”? O Aborto não é um abuso sexual mas um assassínio de um ser humano indefeso).

Se alguma hierarquia acordou tarde e mal, o que não é de admitir, também não podemos acusar “A” hierarquia toda de incúria e muito menos de conivência.

… Quanto ao perdão, a senhora “perita-pintora” deve, ou deveria saber, que o Perdão para os católicos tem sempre lugar no coração de Deus, desde que haja arrependimento e se faça o voto de não voltar a cometer o pecado objecto de correcção e castigo. Deus é Misericordiosíssimo mas é Justo! É neste contexto que se fala do Inferno e do Demónio de que deixou de se referir nas homilias e nas catequeses. O Demónio não é uma imagem para o mal, Pecado mortal e o Inferno existem e aguardam muitos dos pedófilos conhecidos, desconhecidos e outros criminosos com “bom ar” de santos de pechisbeque, sejam Padres, Arcebispos, Bispos, Papa, Cardeais, Freiras ou Leigos. É que pecados graves não são só os da pedofilia, é bom não se esquecer.

Contudo, Perdão não é desleixo, “assobiar” para o lado e fazer “vista grossa” face a crimes inqualificáveis. Perdão é imitar o próprio Jesus que perdoou a quem o matou! “Não sabem o que fazem…”. Ou a Madalena a quem perdoou MAS disse-lhe que não voltasse a pecar!
Perante os crimes, e destaco o da pedofilia, não pode haver silêncios nem encobrimentos. Precisamos de voltar ao anúncio do Pecado, dos pecados, do Inferno e castigo eterno. Temos de ter a coragem da denúncia dos crimes cometidos por quem quer que seja.

No fundo, caros Amigos-leitores, regresse a Igreja ao Evangelho todo mesmo ao que vai contra a corrente! O mundo, e por maioria de razão os católicos, tem de saber que Deus é MISERICÓRDIA mas é igualmente JUSTO.

Poderia ficar calado perante o crime, os crimes hediondos cometidos por irmãos meus na Fé?

Também não posso ficar indiferente e calado face aos ataques à minha Igreja santa com pecadores.



SILERE NON POSSUM!

Carlos Aguiar Gomes, Braga, 2 de Março de 2023.

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