sábado, 19 de dezembro de 2020

Que Portugal é este que não consegue fugir à cauda da Europa?

«Agora que já não há nem o rei nem a monarquia para culpar pelas nossas desgraças, agora que também já não há as ditaduras nem a sociedade fechada e pequenina que nos limitava, agora está na hora de olharmos para nós próprios e fazermos o que tem de ser feito enquanto vamos a tempo de alterar as coisas como pretendemos, para que nem tenhamos de voltar a passar por experiências tão traumáticas como as que vivemos após a grande crise de 2010, nem estejamos condenados a uma desqualificação paulatina dos nossos sonhos e aspirações de poder viver uma sociedade verdadeiramente mais democrática e com mais justiça. 

Chegámos à Europa do mercado comum há 35 anos. Depois de termos visto destruir, como já referi, com os excessos do PREC, os poucos grupos económicos que a abertura progressiva ao exterior tinha gradualmente vindo a ajudar a fortalecer, numa espécie de exercício de autoflagelação e automutilação, ainda há, a espaços, quem pretenda culpar a Europa e as suas instituições – ou simplesmente os governos dos frugais para uns, os governos dos iliberais para outros, senão mesmo ambos ainda para os mais imaginativos - por não termos a realização e o crescimento que ambicionamos. Mas é ridículo que no país haja sempre quem estique o dedo acusador aos outros países e à Europa, quando quase todos na Europa progridem e convergem mais do que nós à medida que a integração europeia se aprofunda. 

Aproximámo-nos significativamente, em termos reais, da média europeia na primeira meia dúzia de anos da integração quando eramos apenas 15 países. Mas conseguimos singularmente regredir à medida que países mais pobres e menos desenvolvidos que nós se integraram na União Europeia. 

Poderá dizer-se que regredimos mais nos anos de crises que tivemos de enfrentar, o que é verdade. 

Mas isso esquece que os outros também enfrentaram as crises e que a média europeia reflete esse desempenho de todos, pelo que se nos afastámos mais dos outros durante as crises, foi porque a nossa vulnerabilidade estrutural nos impõe nas crises prejuízos maiores do que aos outros. 

E se somos já um dos países mais antigos da política de coesão, seremos em breve, se tudo continuar como até aqui, o que mais distante se apresentará de todos os outros, incluindo os da coesão, e daqueles em que as desigualdades de rendimento mais se apresentarão vincadas. 

Que Europa é esta que só prejudica em termos relativos Portugal? 

Não será, finalmente, conveniente perguntarmo-nos: que Portugal é este que não consegue fugir à cauda da Europa quando praticamente todos os outros conseguem? 

A resposta terá de ser dada por nós próprios. Olhando para dentro da sociedade portuguesa e mudando o que é preciso. Mudar nas estruturas públicas e privadas. 

Conseguir, se assim o desejarmos, implantar regras estáveis e confiáveis. 

Responsabilizar a sociedade civil e o Estado e cultivar um exemplo de salvaguarda e de separação de interesses que possa incutir o desenvolvimento do capital social e da confiança. 

Mas sabendo que um país com as nossas características e com a nossa dimensão e vulnerabilidade só pode ganhar escala e transcender-se se se voltar para fora e para o mundo. Com empresas e grupos económicos de maior dimensão e com maior ambição. 

E não falo apenas do mundo europeu, falo também do mundo global, a começar pelo mundo global em língua portuguesa que tem andado tão arredado e distante das preocupações dos poderes públicos, ainda para mais quando há situações que bem reclamam uma outra atitude de responsabilidade e de solidariedade, como acontece perigosamente com Moçambique, por exemplo, cuja, pelo menos aparente, passividade portuguesa não tem explicação.»

Excerto da intervenção de Pedro Passos Coelho, ontem, na Academia das Ciências, na homenagem a Alfredo da Silva, sob o título “Globalização em português - revoluções e continuidades”

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