Brilhante artigo de opinião da autoria de Carlos Guimarães Pinto... merece ser lido!...
Num país saído de uma ditadura fascista e sob o risco de entrar numa ditadura comunista, ser social-democrata era ser-se, acima de tudo, liberal e reformista
Dia 4 de dezembro: centenas de apoiantes comunistas saem à rua a festejar a sua maior vitória desde o 25 de Abril. Automóveis com a bandeira do PCP apitam nas ruas, ouvem-se foguetes junto a algumas sedes do Partido Comunista e há um clima de festa nos cafés habitualmente frequentados por militantes do PCP. O ano era 1980 e o evento festivo era a morte de Sá Carneiro. Certamente por coincidência, o PCP resolveu marcar o seu congresso para o 36.o aniversário desse acontecimento.
Com o mesmo entusiasmo com que celebraram a morte de Sá Carneiro, os militantes do PCP reunidos em Almada homenagearam o ditador Fidel Castro com uma ovação de pé. Numa entrevista ao “Observador”, um dos seus altos dirigentes disse com todas as letras que Fidel não era um ditador porque tinha “legitimidade revolucionária”. Estamos a falar de um partido que acha, portanto, que a força das armas dá legitimidade para governar décadas a fio sem eleições.
Mais forte do que nunca, o partido comunista controla hoje a esmagadora maioria dos sindicatos da função pública, tendo o poder de os mandar gritar ou calar de acordo com as suas conveniências políticas. Marimbando-se para os trabalhadores que representa, o PCP vê nos sindicatos apenas uma forma de fazer chantagem com o eleitorado, ameaçando lançar o caos caso este não faça as escolhas que prefere.
A troco da sua sobrevivência política, António Costa deu-lhes ainda mais poder, garantindo o controlo absoluto do Ministério da Educação e do setor dos transportes públicos. Por isso, mais do que nunca, convém olhar de forma séria para o perfil do político português mais odiado de sempre pelo PCP.
É muito fácil cair no erro de olhar para Sá Carneiro e ver nele um social--democrata de acordo com as definições atuais. Avaliá-lo assim é ignorar o contexto histórico da sua ação política. Num país saído de uma ditadura fascista e sob o risco de entrar numa ditadura comunista, ser social-democrata era ser-se, acima de tudo, liberal e reformista. E era isso que Sá Carneiro representava. É essa a génese do PPD-PSD. Ele fez-se social-democrata por ser liberal e reformista, e não o contrário. No final dos anos 70, já ele defendia medidas liberalizadoras que só vieram a concretizar-se décadas mais tarde. Algumas ainda continuam por concretizar.
Defendia, entre outras coisas, a existência de televisões privadas (o que só aconteceria em 1992), a adesão à CEE (que só se concretizaria em 1986), a retirada da carga ideológica da Constituição, a liberdade de ensino e a defesa absoluta da propriedade privada. Em retrospetiva, é muito fácil concordar com tudo isto mas, no seu tempo, estas eram ideias inovadoras.
Sá Carneiro seria hoje um liberal. Seria hoje aquilo a que muitos, à esquerda, gostam de chamar “direita radical”. Aliás, era disso que o acusavam de ser em 1980 (mesmo alguns dentro do seu partido). Por isso é que, hoje, todos os que acham que o PPD--PSD deve largar o seu reformismo para “voltar às origens sociais-democratas” estão terrivelmente equivocados. O PPD-PSD é, de origem, um partido reformista, mesmo que tenha perdido esse ímpeto no terceiro mandato de Cavaco e na travessia do deserto que se lhe seguiu.
Não se sabe se Passos Coelho foi reformista por convicção ou por força das circunstâncias, mas a verdade é que liderou o governo mais reformista dos últimos 20 anos. Quem deseja que o PPD-PSD deixe de ser reformista por motivos eleitoralistas ou porque assim “voltaria às origens” está a querer condenar o país a um sistema político sem escolha. Está a condenar o país a um sistema político em que não há alternativa ao socialismo facilitista e respetivas bancarrotas. Está a ceder de forma final e absoluta à retórica da extrema-esquerda. Essa não seria a opção de Sá Carneiro.
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