sábado, 31 de janeiro de 2026

O Amor e o Tempo (*)


Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

— «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento...
— «Porque voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» — Nesse momento,

Volta-se o Amor e diz com azedume:
— «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!

(*) António Feijó, in 'Sol de Inverno'




terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Urgentemente


É urgente o amor
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


Eugénio de Andrade
In “Até Amanhã"

sábado, 24 de janeiro de 2026

Gosto de música... Voar (Opus 6)


Conheço esta música há muitos anos… no entanto, não sei bem porque razão, nos últimos tempos tem sido uma sugestão muito presente nas playlists do Spotify (que, em abono de verdade, cada vez mais me vai acompanhando)…

Esta música "Voar (Opus 6)", do Tim (de seu nome completo António Manuel Lopes dos Santos), baixista e vocalista dos Xutos & Pontapés (aqui acompanhado por Rui Veloso no projeto conhecido como Companheiro de Aventura), confronta-nos com as limitações que muitas vezes nos são impostas e que nos vão tolhendo a vida… nela, o país, a mãe ou o doutor, acabam por fazer parar os nossos sonhos…

“Eu queria ser astronauta
O meu país não deixou
Depois quis ir jogar a bola
A minha mãe não deixou
Tive vontade de voltar á escola
Mas o doutor não deixou
Fechei os olhos e tentei dormir
Aquela dor não deixou”

É interessante pensar que depois de Manuel Freire nos ter dito que:

“Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida
Tão concreta e definida
Como outra coisa qualquer”,

Tim nos tenha vindo dizer que obstáculos externos podem frustrar os nossos sonhos e desejos.

O que nos vale é o “anjo da guarda” que nos pode fazer “voltar a sonhar” e “voar”, voar em busca de liberdade e da superação dessas barreiras que nos são impostas ou que nós próprios impomos. 

“O meu quarto é o meu mundo” e “O ecrã é a janela”… é melhor

“Acordar, meter os pés no chão
Levantar pegar no que tens mais à mão
Voltar a rir
Voltar a andar”…



sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

“O que não posso, porque não tenho esse direito, é calar-me, seja sob que pretexto for” - Sá Carneiro


De cinco em cinco anos, somos chamados a eleger o Presidente da República. Em 2026 elege-se o 21.º PR nestes pouco mais de 115 anos de sistema republicano vigente em Portugal.

Diz a Constituição que o Presidente da República é eleito por sufrágio universal, direto e secreto, pelos cidadãos portugueses recenseados no território nacional e no estrangeiro, num processo que decorrerá em duas voltas, caso nenhum candidato obtenha mais de metade dos votos validamente expressos na primeira volta e que esta segunda volta, quando necessária, realiza-se entre os dois candidatos mais votados na primeira.

Sucede que em 2026, e pela segunda vez na história desta república, lá vamos nós dar uma segunda volta... porque os candidatos da primeira volta não reuniram consenso suficiente, ou seja, eram todos, por assim dizer, fraquinhos!... uns mais que outros... mas, todos muito fraquinhos!...

Para além disso, esta eleição que, de acordo com a Lei, deveria ser suprapartidária, não o foi!… e, apesar da aparente maioria de centro-direita (se é que isso realmente existe?) que governa (às vezes), o candidato mais votado, beneficiando claramente da divisão do centro-direita, é oriundo da esquerda (centro-esquerda, ou coisa que o valha), de seu nome António José Seguro, antigo Secretário-geral do PS. É seguido por André Ventura, líder do Chega que se candidata a PR nessa mesma qualidade não tendo qualquer pudor em dizer que era nessa qualidade que o fazia e para defender apenas e só aquilo que o seu partido (uma espécie de seita que segue cegamente o seu líder) defende. 

Assistimos a uma campanha eleitoral marcada, em demasia, por uma clara polarização partidária, onde os interesses dos partidos se sobrepuseram ao espírito de união nacional que se esperaria num processo de eleição daquele que será, ou talvez não, ‘o Presidente de todos os portugueses’... imagine-se o ridículo que foi ver todos os maiores partidos a apresentar uma candidatura (o CDS-PP não conta para esta equação como, aliás, para muitas outras, não tivesse sido o erro de o terem ressuscitado)!

E, os senhores candidatos, mesmo os putativos vencedores, em vez de se preocuparem em promover consensos, delinearam, quase todos, estratégias e discursos mais centrados na luta política e na defesa dos partidos dos quais saíram, deixando de lado a busca do bem comum...

No que aos titulares do bilhete para a segunda volta diz respeito, a saber, António José Seguro e André Ventura, há que dizer que não têm nada em comum… nem tampouco, ambos têm o desejo de ser eleitos... porque se António José Seguro o tem, André Ventura, concorrente a tudo e a mais alguma coisa, está nesta corrida eleitoral não porque quer ser Presidente da República, mas porque quer ser Primeiro-ministro.

E, com esta forma de ser, ao querer ser tudo e um par de botas, André Ventura, lá vai deixando as suas marcas na política portuguesa… negativas, tenho a certeza… pela sua postura direta ‘mas completamente enviesada’, pela sua capacidade de mobilizar apoiantes através de ‘discursos populistas’ que desafiam (ou impedem) o consenso e fomentam a divisão, pelo seu tom excessivamente combativo e pela constante defesa de propostas que frequentemente geram controvérsia, incentivando debates acesos sobre temas como imigração, justiça e a segurança… hábil na utilização dos meios de comunicação e das redes sociais para amplificar as suas mensagens… mas também pela mentira… pela falta de rigor… pela berraria…

Por tudo o que disse anteriormente, a frase de Sá Carneiro que dá título a este meu desabafo, ganha uma nova dimensão perante a atual conjuntura. Neste tempo em que o descontentamento e a desconfiança em relação à classe política crescem, e em que fenómenos como a abstenção (que só diminui porque o conjunto de ‘crentes’ do Venturismo é cada vez maior [que medo!]) e o alheamento político ameaçam a vitalidade da democracia, o apelo a não calar, a não nos demitirmos da participação cívica, é mais pertinente do que nunca.

As eleições presidenciais, mesmo para os defensores do regime monárquico, são um momento privilegiado para o exercício desse direito e desse dever. O Presidente da República, enquanto Chefe de Estado tem que ser o garante da Constituição e o moderador do sistema político. Deve ser alguém que, tal como Sá Carneiro defendia, não se cale perante injustiças, abusos ou ameaças aos valores democráticos.

Todos nós somos chamados a esta luta... Sá Carneiro lembrava-nos que calar não é uma opção legítima em democracia, nem para os representantes eleitos, nem para os cidadãos… e nós, não temos o direito de nos calarmos... o silêncio, seja por indiferença, medo ou desilusão, pode ser tão prejudicial à democracia como a repressão aberta do passado… sob pena de deixarmos que outros decidam por nós!... e, neste tempo em que vivemos e em que somos chamados a fazer uma escolha, exige-se-nos coragem para falar, denunciar e propor alternativas.

Assim, confrontado com a escolha que tenho de fazer, e com os candidatos, não me resta qualquer dúvida de que o único voto possível é em António José Seguro... não convencido… apenas resignado, voto no candidato claramente reconhecido pela sua postura moderada, pelo seu compromisso com o diálogo democrático, pela defesa da estabilidade institucional e pelo respeito pelos valores constitucionais.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A Gronelândia é nossa!…



Ora bom… ando há já vários dias a pensar se devo ou não escrever isto… não vá o diabo tecê-las e o Sr Trump ainda me vem buscar… o que vale é que tenho sono leve…

Mas pronto, aqui vai: a Gronelândia é nossa!!!

E é nossa desde 7 de junho de 1494 quando foi assinado entre os Reinos de Portugal e de Castela o Tratado de Tordesilhas que, recorde-se, foi um acordo para dividir as terras "descobertas e por descobrir" no mundo, estabelecendo um meridiano 370 léguas a oeste de Cabo Verde, com Portugal a ficar com as terras a leste e Espanha com as a oeste, garantindo assim a Portugal o direito sobre a porção leste do futuro Brasil e a maior parte da Gronelândia…

Portanto Sr Trump, cuidadinho com o que quer ocupar!!! Veja lá se quer que os nossos submarinos entrem em ação?… e, já agora, a parcela de terreno da qual o Sr é Presidente é, desde a mesma data, Castelhana… 


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Gosto de música… No trilho do Sol… 30 anos

Cumprem-se, em junto do corrente, 30 anos do lançamento de No Trilho do Sol, o terceiro álbum de estúdio dos Quinta do Bill, na minha humilde opinião de simples apreciador de música, um dos mais conceituados grupos de folk rock português. 


Este álbum lançado originalmente em junho de 1996 foi, por ocasião dos 25 anos, objeto de uma reedição, com interpretações de vários convidados, entre os quais Katia Guerreiro e Luís Guerreiro, Rita Redshoes, Samuel Úria e Tim que deram novas vozes e novos arranjos a um álbum muito interessante deste grupo fundado em 1987, em Tomar, por Carlos Moisés e Paulo Bizarro e que gravou até à data nove álbuns de originais: Sem Rumo (1992), Os Filhos da Nação (1994) [na minha opinião usado abusivamente como “hino” de um clube], No Trilho do Sol (1996), Dias de Cumplicidade (1998), Nómadas (2001), A Hora das Colmeias (2006), Sete (2011), As Baladas (2012), Todas as Estações (2016). Para além destes, lançaram quatro compilações: Best of (1999), Ao Vivo Tour 2003 (2004), Quinta do Bill - 20 Anos ao Vivo (2008) (2CD+DVD), Sinfónico - ao vivo no Coliseu do Porto (2015) (2CD+DVD)… 

No Trilho do Sol, surge com uma fotografia de um índio norte-americano na capa e tinha 15 temas, entre os quais Se te amo e A única das amantes, para além de Parar o tempo… gosto muito deste álbum… 

Deixo aqui uma das minhas favoritas, no Coliseu do Porto… 

sábado, 17 de janeiro de 2026

A Formiga no Carreiro


Amanhã, Portugal vai a votos para eleger o Presidente da República.., o 21.º Presidente da República Portuguesa desde a implantação deste sistema em 05 de outubro de 1910… 

E eu, qual “formiga no carreiro” tal como a do poema de Zeca Afonso, só me apetece andar “em sentido contrário”!

Este poema de Zeca Afonso é um dos exemplos mais emblemáticos da sua capacidade de usar imagens simples do quotidiano para refletir sobre questões profundas e universais.

Nesta composição, a figura da formiga, animal pequeno, aliás, muito pequeno, mas persistente e infatigável, a seguir sempre o seu caminho no carreiro, mesmo que em sentido contrário, é uma metáfora poderosa para o papel do povo – tantas vezes submetido à rotina, ao trabalho contínuo e à resignação perante a ordem estabelecida… tal como amanhã, em fila, uma espécie de carreiro… e, lá vamos fazer uma cruz… e, com ela, escolher o senhor que se segue…

No que a mim me diz respeito, tal foi o nível da campanha, apesar de não me apetecer cair ao rio, apetecia-me ir em sentido contrário… não ir votar!…

Não ir votar, à luz do poema, pode ser visto como uma manifestação de cansaço perante a repetição dos mesmos gestos, das mesmas expectativas e, muitas vezes, das mesmas desilusões… ou da fraca qualidade dos candidatos.

No entanto, tal como a formiga, que segue o seu carreiro, em sentido contrário, contra o septuagenário, amanhã muitos cidadãos, provavelmente a maior parte, sentem que devem participar nas eleições, apesar de também sentirem que pouco ou não se vai alterar no rumo das suas vidas.

Mas, Zeca Afonso, ao retratar esta formiga, persistente no seu caminho contrário, também nos estará a desafiar a questionar o carreiro que seguimos: será o inevitável? Haverá outros caminhos possíveis?

Talvez a resposta a estas perguntas esteja não só na reflexão, mas, acima de tudo, na procura de alternativas… E, acima de tudo, no reconhecimento de que cada escolha, mesmo eventualmente a de não votar, é uma posição política, carregada de significado e consequência.

Eu vou votar…


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Como dizia António Guterres, "é fazer a conta"!!!

O Sistema Nacional de Saúde enfrenta um conjunto de desafios significativos que têm impacto direto na qualidade dos cuidados prestados à população e, consequentemente, na vida de todos nós. 

Mas está cheia de “doenças”… e não há quem lhe faça a cura!...

Os diagnósticos estão feitos… entre principais problemas encontram-se:

• a falta de profissionais de saúde, nomeadamente médicos, enfermeiros e técnicos especializados, o que contribui para o aumento dos tempos de espera e a sobrecarga das equipas existentes;

• as infraestruturas, em muitos casos, velhas, a carecerem de intervenções de modernização (ou simples manutenção adequada), refletindo-se isso em condições de trabalho menos favoráveis e numa experiência, para não dizer outra coisa, menos positiva para os utentes;

• a pressão constante, decorrente do aumento da população (idosa) sobre os serviços de urgência e a dificuldade de acesso a consultas de especialidade que geram insatisfação e preocupação entre os cidadãos. 

E, sempre, mas principalmente por estes dias, como não podia deixar de ser, muito se tem discutido o estado do SNS… opiniões nos meios de comunicação social (cheia de especialistas em tudologia), políticos (da oposição [que na oposição apresentam soluções que não foram capazes de implementar quando estiveram na situação] ou da situação [que agora que lá estão, não conseguem fazer o que prometiam quando estavam na oposição]) apresentam-se sempre ávidos em apontar soluções e… nas conversas do dia a dia… até aqui se apontam caminhos… 

A verdade é que se sente um claro e enorme crescimento da preocupação face aos desafios enfrentados pelo sistema de saúde.

Há que considerar que o SNS é um pilar fundamental do Estado Social, assegurando o acesso universal e tendencialmente gratuito aos cuidados de saúde. 

E, reformas e investimentos são essenciais para garantir a sustentabilidade e a capacidade de resposta deste sistema, de modo a enfrentar as exigências demográficas e epidemiológicas de uma sociedade em mudança.

Mas, é um problema de hoje?... não, não é!!! É um problema com décadas e que ninguém tem capacidade e/ou vontade para lhe aventar uma proposta séria de solução… que o diga António Guterres que em maio de 1995, quando ainda não era Primeiro-Ministro de Portugal, ao tentar calcular em dinheiro aquilo que julgava ser a sua meta de investimento na saúde (6% do PIB) nos mandou fazer as contas… porque… ele não conseguia…

“- Ahhh... O Produto Interno Bruto são cerca de três mil milhões de contos, seis por cento de três mil milhões são... três vezes seis, 18... ahhh... um milhão e... ahhh um milhão e... portanto, enfim, o melhor é... é fazer a conta.”

Aqui fica a pérola:



domingo, 4 de janeiro de 2026

Gosto de janeiros… e de frio…

Há algo de especial nas manhãs silenciosas de janeiro, o primeiro mês do ano, quando o ar parece suspenso e o mundo inteiro abranda para respirar fundo.

Janeiro, o primeiro de doze meses do ano, para muitos, é apenas o início de um novo ciclo… uma folha em branco no calendário; para mim, é um convite à introspeção e ao aconchego… uma boa refeição, um bom copo, uma boa conversa, uma lareira.

O frio de janeiro tem o dom de juntar as pessoas. O cheiro a lareira acesa, o vapor que escapa das chávenas de café ou de chá quentes, os cachecóis coloridos nas ruas, tudo isso compõe uma atmosfera linda, quase mágica. Ao contrário do verão, que nos chama para fora, o inverno empurra-nos para dentro de casa, muitas vezes, para dentro de nós mesmos… sentados num sofá… aconchegados nas mantas que nos aquecem…

Há uma beleza serena nos dias frios quando as janelas ficam embaciadas e o mundo lá fora se veste de tons suaves. É nesta época que os silêncios falam mais alto e que as memórias do ano recém-findo se ajeitam para dar espaço às novidades que aí vêm.

Janeiro é tempo de tranquilidade, de renovar promessas… alimentar sonhos… valorizar pequenos prazeres como um cobertor macio ou o calor de uma boa fogueira e de uma boa conversa.

Talvez por isso goste tanto de janeiros e do frio: porque me lembram que o conforto está nos detalhes e que, mesmo neste que é um dos meses mais duros do ano, há sempre espaço para a esperança e para o recomeço.