De cinco em cinco anos, somos chamados a eleger o
Presidente da República. Em 2026 elege-se o 21.º PR nestes pouco mais de 115 anos de sistema republicano vigente em Portugal.
Diz a
Constituição que o Presidente da República é eleito por sufrágio universal, direto e secreto, pelos cidadãos portugueses recenseados no território nacional e no estrangeiro, num processo que decorrerá em
duas voltas, caso nenhum candidato obtenha mais de metade dos votos validamente expressos na primeira volta e que esta segunda volta, quando necessária, realiza-se entre os dois candidatos mais votados na primeira.
Sucede que em 2026, e pela segunda vez na história desta república, lá vamos nós dar uma segunda volta... porque os candidatos da primeira volta não reuniram consenso suficiente, ou seja, eram todos, por assim dizer, fraquinhos!... uns mais que outros... mas, todos muito fraquinhos!...
Para além disso, esta eleição que, de acordo com a Lei, deveria ser suprapartidária, não o foi!… e, apesar da aparente maioria de centro-direita (se é que isso realmente existe?) que governa (às vezes), o candidato mais votado, beneficiando claramente da divisão do centro-direita, é oriundo da esquerda (centro-esquerda, ou coisa que o valha), de seu nome
António José Seguro, antigo Secretário-geral do PS. É seguido por
André Ventura, líder do
Chega que se candidata a PR nessa mesma qualidade não tendo qualquer pudor em dizer que era nessa qualidade que o fazia e para defender apenas e só aquilo que o seu partido (uma espécie de seita que segue cegamente o seu líder) defende.
Assistimos a uma campanha eleitoral marcada, em demasia, por uma clara polarização partidária, onde os interesses dos partidos se sobrepuseram ao espírito de união nacional que se esperaria num processo de eleição daquele que será, ou talvez não, ‘o Presidente de todos os portugueses’... imagine-se o ridículo que foi ver todos os maiores partidos a apresentar uma candidatura (o CDS-PP não conta para esta equação como, aliás, para muitas outras, não tivesse sido o erro de o terem ressuscitado)!
E, os senhores candidatos, mesmo os putativos vencedores, em vez de se preocuparem em promover consensos, delinearam, quase todos, estratégias e discursos mais centrados na luta política e na defesa dos partidos dos quais saíram, deixando de lado a busca do bem comum...
No que aos titulares do bilhete para a segunda volta diz respeito, a saber, António José Seguro e André Ventura, há que dizer que não têm nada em comum… nem tampouco, ambos têm o desejo de ser eleitos... porque se António José Seguro o tem, André Ventura, concorrente a tudo e a mais alguma coisa, está nesta corrida eleitoral não porque quer ser Presidente da República, mas porque quer ser Primeiro-ministro.
E, com esta forma de ser, ao querer ser tudo e um par de botas, André Ventura, lá vai deixando as suas marcas na política portuguesa… negativas, tenho a certeza… pela sua postura direta ‘mas completamente enviesada’, pela sua capacidade de mobilizar apoiantes através de ‘
discursos populistas’ que desafiam (ou impedem) o consenso e fomentam a divisão, pelo seu tom excessivamente combativo e pela constante defesa de propostas que frequentemente geram controvérsia, incentivando debates acesos sobre temas como imigração, justiça e a segurança… hábil na utilização dos meios de comunicação e das redes sociais para amplificar as suas mensagens… mas também pela mentira… pela falta de rigor… pela berraria…
Por tudo o que disse anteriormente, a frase de
Sá Carneiro que dá título a este meu desabafo, ganha uma nova dimensão perante a atual conjuntura. Neste tempo em que o descontentamento e a desconfiança em relação à classe política crescem, e em que fenómenos como a
abstenção (que só diminui porque o conjunto de ‘crentes’ do Venturismo é cada vez maior [que medo!]) e o alheamento político ameaçam a vitalidade da democracia, o apelo a não calar, a não nos demitirmos da participação cívica, é mais pertinente do que nunca.
As eleições presidenciais, mesmo para os defensores do regime monárquico, são um momento privilegiado para o exercício desse direito e desse dever. O Presidente da República, enquanto Chefe de Estado tem que ser o garante da Constituição e o moderador do sistema político. Deve ser alguém que, tal como Sá Carneiro defendia, não se cale perante injustiças, abusos ou ameaças aos valores democráticos.
Todos nós somos chamados a esta luta... Sá Carneiro lembrava-nos que calar não é uma opção legítima em democracia, nem para os representantes eleitos, nem para os cidadãos… e nós, não temos o direito de nos calarmos... o silêncio, seja por indiferença, medo ou desilusão, pode ser tão prejudicial à democracia como a repressão aberta do passado… sob pena de deixarmos que outros decidam por nós!... e, neste tempo em que vivemos e em que somos chamados a fazer uma escolha, exige-se-nos coragem para falar, denunciar e propor alternativas.
Assim, confrontado com a escolha que tenho de fazer, e com os candidatos, não me resta qualquer dúvida de que o único voto possível é em António José Seguro... não convencido… apenas resignado, voto no candidato claramente reconhecido pela sua postura moderada, pelo seu compromisso com o diálogo democrático, pela defesa da estabilidade institucional e pelo respeito pelos valores constitucionais.